domingo, 13 de julho de 2014



Luís Gonzaga Pinto da Gama (Salvador, 21 de junho de 1830 - São Paulo, 24 de agosto de 1882) foi um rábula, orador, jornalista e escritor brasileiro.

Nascido de mãe negra livre e pai branco, foi contudo feito escravo aos 10, e permaneceu analfabeto até os 17 anos de idade. Conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a atuar na advocacia em prol dos cativos, sendo já aos 29 anos autor consagrado e considerado "o maior abolicionista do Brasil".

Apesar de considerado um dos expoentes do romantismo, obras como a "Apresentação da Poesia Brasileira", de Manuel bandeira, sequer mencionam seu nome.

Teve uma vida tão ímpar que é difícil encontrar, entre seus biógrafos, algum que não se torne passional ao retratá-lo — sendo ele próprio também carregado de paixão, emotivo e ainda cativante. A despeito disto o historiador Boris Fausto declarou que era dono de uma "biografia de novela".

Foi um dos raros intelectuais negros no Brasil escravocrata do século XIX, o único autodidata e o único a ter passado pela experiência do cativeiro; pautou sua vida na defesa da liberdade e da república, ativo opositor da monarquia, veio a morrer seis anos antes de ver seus sonhos concretizados.


Ctrl C + Ctrl V da Wikipedia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Gama

Pra saber mais:

http://www.quilombhoje2.com.br/trovasluisgama.pdf

http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n17_p87.pdf

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Pintos tecendo a manhã: literatura periférica em construção


O instante: transcorridos dezesseis dias do sexto mês do corrente ano depois de morto o cristo. Intitulado Piquenique de Argumentos, um pequeno encontro no meio da tarde, a reunião foi uma sobremesa poética servida no banquete maior: VI Festival das Artes do Subúrbio Ferroviário - Caldeirão Cultural, que ocorreu entre os dias 06 e 17 de junho na cidade de Salvador.  
Os participantes: Jocevaldo Santiago, Adelmir Chabi, Pachara, Gabriel, Evanilson Alves, Sandro Sussuarana, Robson Veio, Jocelia Fonseca, Franci Sousa, Leandro Mota e Uilians Souza e os Coletivos artísticos: Sextas Poéticas, Sarau da Onça, Ágape e Guetto A.
Poderia, pelo que a coisa suscita dos escombros pretéritos, ser espécie de repeteco deslocado, o deguste literário com chá e biscoito fino servido aos que outrora desfilavam nos salões. Mas, não era de uma pretensa literatura, melhor, as vozes que lá estiveram não se rogavam talento nobre nacional, não eram profissionais das palavras, desses que assaltam os meios e se encravam nos livros como sinônimos de qualidade maior.
Não era isso, e para que tal marcação diferencial cumpra aqui a sua função, uma menção, a voz do poeta José Carlos Limeira entoada em versos: “minha poesia não se presta ao chá das cinco na academia”. Se o que sai da boca do outro pode ser algo nosso por identificação, o canto lírico do poeta se fez canto coletivo para retratar uma intenção única naquela tarde. Tarde de poetas e poetisas, tarde de poema e de literatura, tarde que mais parecia uma metáfora velha, o amanhecer.
Agora, sabe-se, longe de ser uma tarde de literatos que desfilam em trajes que antecedem o poema, os poetas estavam reunidos em um grande círculo, face a face, mirando os olhos do outro, nutriam a sinceridade da cumplicidade. Entretanto, o teor da conversa não era secreta, não se constituía espécie de conchavo entre pares que se reúnem para definir o destino das verbas do fundo estadual de cultura.
Por outro lado, aquém da manutenção de privilégios, os ecos não eram de protestos. Se havia alguma bandeira, ficaram todas do lado de fora, guardadas dentro dos sapatos de quem as levaram. Não pensem, porém, em fantasias de uma casta pura, tipo poetas somente a serviço da literatura. Argumentos idealistas dessa natureza possuem validade vencida.
O piquenique apenas queria falar de nós, refletir a respeito do próprio fazer, com linguagem despojada de firulas linguísticas ou formato formal. Nessa tarde inédita, a proficiência poética, o talento e a vaidades de cada um ficaram recolhidas em nome da exposição do fazer, das influências, dos desejos e das dificuldades. Quem são essas poetisas e poetas? Através do nosso olhar não são estranhos, nem exóticos, tampouco isso ou aquilo. Mas como muitos outros, os indivíduos que lá estavam, por erro de algum universo, escreviam por uma necessidade de escrever. Esse era o princípio comum, ordinário a qualquer um escritor. O depois disso são frescuras sociais, brincadeiras simbólicas de manutenção de poder.
Para além de todas as bobagens e importâncias teóricas e críticas, numa tarde de sábado, tudo isso foi esquecido. Com esteiras e panos estampados forrados no chão, cada um abriu sua cesta de merenda, expôs os vetores da própria poética e compartilhou a coisa boa de ser poeta sem classificação. Depois de tudo, quando cada qual tomou o seu rumo, caminharam para as comunidades, favelas e periferias da cidade de Salvador. Isso foi mágico, foi tudo!

Jocevaldo Santiago
18-06-201

sábado, 3 de março de 2012

Como se constrói um poema na articulação entre técnica e imaginação?


O ‘como’ da pergunta é, certamente, o item inquietante da questão proposta. Sem o advérbio, ainda assim, a pergunta não tenderia a ser simplória, uma vez que técnica e imaginação fazem parte de universos distintos. Melhor deixar o ‘como’ para mais adiante, pois urge entender técnica e imaginação para, posteriormente, verificar a possibilidade de articulação entre tais elementos.
De que precisa um artista para fazer um artefato considerada arte, dom ou habilidade? Certamente, o assunto (particularmente a pergunta) é corrente, caso não seja na história da arte, com certeza o é entre os que se dedicam a produzir algo que valha o nome de obra. A questão antecede modernidade, mas a partir do romantismo ganhou significados particularizados, não bastava ao pintor, ao escultor e ao poeta saber fazer. Nesse período, torna-se nítida a consciência de que pintar, talhar e rabiscar já não eram entendidos como privilégios reservado aos artistas.
Compreender que, em algum momento do passado, dom e habilidade se confundiam é tão importante quanto perceber que a ruptura desse pensamento se fez com o nascimento de uma nova mentalidade. Saber fazer não é sinônimo de dom, pode ser o resultado de repetições e treino em dado ofício. Para o pensamento do homem moderno cada vez mais se tornava nítido o que hoje rotulamos de competência, ou seja, o domínio no uso da técnica.
Obviamente, o domínio da técnica poderia e pode ser um dom. Isso não é um jogo com as palavrinhas, porque não se trata de invalidar a técnica, retirar dela a condição importante para a produção. O artista, sobretudo aquele que nasce moderno, deve saber disso, deve (a modernidade é uma condição imperativa) ter a consciência do saber fazer e, mais que isso, do porque fazer.
Ao escolher a imaginação como elemento conceitual, usando ela para exprimir considerações sobre o fazer, Charles Baudelaire põe em debate a idéia da arte e do artista concebidos entre os seus contemporâneos. Para o poeta francês, em A invenção da modernidade, ‘a imaginação é a rainha das faculdades’ uma vez que, ainda segundo seu entendimento, ‘a imaginação é criadora’.
Assim, o pintor, o artista que faz uso da imaginação não busca copiar a natureza ou os signos da moda, ao contrário, criam segundo uma consciência crítica que o localiza num dado tempo. Consequentemente, seu comprometimento no uso da imaginação é com os rumos da arte que o adjetiva como tal.
Nessa perspectiva, ainda que a imaginação não seja o produto artístico, ela, por sua vez, se projeta neste dando-lhe caracteres peculiares que os distinguem entre os semelhantes. O que seria isso? Gênio do artista, dom? A resposta é simples, para Charles Baudelaire, ‘a imaginação, graças sua natureza suplementar, inclui o espírito crítico’.
Não se deve, no entanto, restringir à imaginação a função de tornar qualquer produto artístico como sendo arte. A imaginação, é bom que se frise, não é o início, nem o fim em si mesma quando na criação de um poema, ou na pintura de um quadro. É significativo lembrar que o domínio da técnica define, ou não, os rumos para onde segue a criação.
Então, em verdade, técnica e imaginação devem estar articuladas de tal forma que o efeito no produto artístico implique a influência dos dois elementos. Aqui, o ‘como’ se constrói na articulação entre técnica e imaginação tornando-se mais evidente. Desse modo, os dois elementos concorrem para o resultado do bem cultural artístico. Nesse sentido, a imaginação pode se refletir na técnica como sendo a ausência de técnica, isto é, um ato de subverter a técnica. O como fazer, significar informar mudança dos paradigmas tradicionais, pois, o como fazer já é o próprio fazer, que realizado como deslocamento instaura mudança e ruptura.
Ora, os deslocamentos ocorrem mediante algum senso crítico, este, possível de ser realizado pelos meandros da técnica, juntamente com a criatividade da imaginação. Assim, uma resposta objetiva à pergunta como se constrói um poema na articulação entre técnica e imaginação seria na perspectiva do exercício da crítica, justamente por esta problematizar e construir questões sobre a estética e o gosto, ela também possui parâmetros para questioná-los. Sendo o gosto historicamente criado, cabe ao artista crítico por em dúvida o seu próprio fazer, sugerir que os produtos artísticos e culturais surpreendam, mudem as expectativas da audiência das zonas de conforto.
Jocevaldo Santiago

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Manifesto Vagabunletrando

Um manifesto de lançamento de um blog de poemas, ainda com iniciais maiúsculas e destaque em negrito, parece até coisa antiga: movimentos remotos que esgotaram a novidade em nome de outras novidades novíssimas. Que eu me lembre, o meu corpo não fez parte da novidade, daí o peso da herança dos manifestos ser algo meio relativo, pouco imperativo no sentido de tradição herdada. Recebo, porém, as moedas do passado com verdadeiro júbilo, elas me situam nos itinerários percorridos, enquanto busco as minhas próprias moedas. Estas, recolho-as em todos os espaços, em todos os lugares. Nisso, vê-se que é mínima a idéia de Manifesto relacionado às práticas de fundação de certa corrente vanguardista comuns durante os anos do modernismo.
Ao contrário, Me manifesto! Mas não por isso, por causa do pronome que marca e localiza um sujeito, a causa deve ser percebida como mínima, ou sem importância. Se a época dos manifestos fundadores de correntes literárias passou, o que resta agora, nesse fim e início de século, é a proliferação de poéticas adjetivadas segundo questões que diferem dos motivos de outrora. Diferem em sentido, cor, gênero, afetividade, classe, espaços de elocução, forma de produção e publicação. Nessa contemporaneidade de fim de milênio, pós-1980, os sujeitos assistem ao declínio do seu antecessor, ficado em bases coletivas e sociológicas, ao mesmo tempo se reinventam em identidades resultantes de princípios particularizados. Na obstante, as poéticas que, por ventura, surgiram a partir dessa década buscaram dá conta das individualidades.
Esse último parágrafo me dá força para levantar, caminhar, olhar no espelho e identificar as marcas de primeira pessoa do singular. Me manifesto! Eis o grito de uma voz fincada entre os limites da Periferia com a linha dos monumentos modernos que instituem os gostos. Do alto do morro observo as casas embaixo, elas tão eu quanto eu tão elas. Quando mais jovem achava que o divertido era gritar para escutar o retorno solitário da voz repetida, mas agora vejo que o legal disso tudo é unir minha voz noutras vozes para reverberar ecos que expressam outras poéticas. Assim, essa geração implementou diferentes lógicas de conexão, com vínculos afetivos que formam um conjunto de particularidades.
Não devemos nada à história dos Movimentos Literários, nem é essa aqui a questão, porém, fica registrado que essa carta aberta faz parte de um conjunto de manifestações poéticas de uma geração cheia de necessidade de fala. A esse texto, uni-se o Manifesto da Literatura Marginal do escritor Ferréz, mas, igualmente, as produções da poesia feminina, negra, homoafetiva, bem como, a poesia dos presidiários, a poesia de moradores de rua, a poesia de moradores das periferias,a poesia rap, a poesia de cordel e, (porque não?) a poesia canônica.
Me manifesto! Sobretudo, como diferença de forma, de linguagem e de ritmo, o que, respectivamente, revela um corpo que se aceita, um modo peculiar de produção e recepção de signos comunicáveis e, por fim, revela as melodias, as cadências harmônicas e disformes de um sujeito que duela com as palavra. Qualidade poética? Não, pensemos em habilidades. Por isso, ainda que a tradição se esbarre em mim, uma moeda, em vez de pedra, no meio do caminho, o procedimento receptivo muda, porque muda o contexto. Me manifesto! Porque os antigos parâmetros que aferiram gosto, caso imperem no presente, revelarão aguda velhice das retinas.
Embora desconhecido e sem publicação, vejo o eu como o outro dentro da Literatura Brasileira. Também por isso, Me manifesto! para apresentar os versos desconhecidos, que se juntam às múltiplas produções conhecidas, porém esquecidas. Me manifesto! para aproveitar, tardiamente, a ferramenta eletrônica de divulgação, usá-la, não só com o fim último de exposição, mas igualmente, como oportunidade para refletir sobre a lógica organizativa de acesso e construção de redes na internet. Dentro desse imenso espaço, qual é a posição da literatura, da poesia, mais especificamente, das poéticas marginalizadas dentro do próprio campo da poesia?
Me manifesto! esperando paciente os comentários e os vômitos das críticas, ainda assim, como diz os versos: estiquei a língua até as mãos / e beijarei o vômito com paixão.
Jocevaldo Santiago
JUL/2010